Valdir Medrado, o educador (“On doit la verité aux morts”- Bossuet)

Valdir Medrado, o educador (“On doit la verité aux morts”- Bossuet)

Morreu, no dia 15 de agosto de 2008, Valdir Cavalcante Medrado. E seria uma omissão muito grande se a sua morte ficasse sem registro, porque ele foi um dos maiores expoentes da Anestesiologia brasileira. Teve militância associativa, foi presidente da SBA, criou a SBA volante, levando a capitais distantes do Brasil, numa época em que não se dispunha da internet (1973) nem mesmo de facilidades de telefonia à distância, a atualização necessária ao progresso da especialidade. Arautos da melhor categoria, a começar por ele próprio, foram escalados para discutir assuntos de sua competência nas capitais mais distantes do Brasil, quando os colegas desses lugares tiveram oportunidade de ouvir e discutir temas importantes com Álvaro Eugenio, Zairo Vieira, Carlos Parsloe, Danilo Duarte, Guilherme Kurtz (este, pesquisador de farmacologia e autoridade em temas pertinentes à Anestesiologia, principalmente relaxantes musculares). Valdir Medrado deu contribuições relevantes à nossa Especialidade. Foi ele um dos pioneiros no Brasil do uso da peridural contínua para analgesia obstétrica (recurso apresentado por Philip Bromage, em 1960, no CBA de Goiânia) e foi ele também que trouxe para nós, da Duke University (seu ninho acadêmico nos EUA), o FNS, vaporizador “de bolso” para uso de Fluotane e Metoxifluorane, e que passou a ser fabricado aqui pela indústria Grego/Dameca, sediada em Belo Horizonte. E foi ainda Valdir quem introduziu no Brasil, com estudos e observações em hospital universitário da Bahia, o CI-581, a futura Ketamina (Ketalar).

Mas é pouco relevante dizer o que Valdir fez diante do que ele foi. Como assim? Ele foi um dos maiores educadores da medicina brasileira no campo da Anestesiologia. Tinha paixão e amor pelo que fazia, e uma extraordinária capacidade de motivação e convencimento. Não era um cientista, nem mesmo conferencista ou expositor destacado. Ele era um apaixonado pelo que fazia, e conseguia motivar pessoas. Dele se disse, invocando Machado de Assis, que ‘não é a verdade que vence, quem vence é a convicção’. Ele não se destacava por recursos dialéticos, mas tinha idéias e paixão, e isto, sim, era seu argumento maior para persuadir e convencer. Valdir preparou mais de duzentos anestesiologistas na Bahia. Deu dignidade à Especialidade. E ele próprio foi um exemplo de nossa importância e valor na medicina. Foi Diretor Médico de hospitais renomados de Salvador; fez parte do Conselho Regional e da Associação Bahiana de Medicina, onde idealizou e pôs em prática as jornadas da ABM no interior. Reativou e fez circular a Revista Médica da Bahia, e saiu à frente na instalação de UTIs em Salvador. Freqüentou quase quarenta congressos americanos de Anestesiologia, sendo ele o primeiro a trazer de lá os “Refreshers da ASA”, publicação que era, na época, ouro em pó das atualidades em nossa área. E até pouco tempo atrás o Dr. Valdir era presença certa em todos os Congressos Brasileiros de Anestesiologia, tendo papel importante na organização dos que foram realizados na Bahia. E para completar, ele não ficava ausente em nenhum encontro de anestesiologistas da SAEB, viajando pelo interior nos ônibus que levavam os participantes da capital, muitos deles seus ex-alunos, quase todos jovens, que encontravam no seu exemplo inspiração e entusiasmo para viver as experiências e alternativas da especialidade.

Mas Valdir não foi apenas médico e anestesiologista. Foi um apaixonado pela vida e um grande explorador cultural. Achava coisas onde outros não viam nada: artesanatos de Cachoeira, no recôncavo baiano; faianças portuguesas de Dias D´Avila; artistas anônimos de arte popular; coisas que ele mostrava a visitantes estrangeiros – bom cicerone que era – e que causava encantos em todos. (Errou quando levou Severinghaus, o famoso cientista da Anestesiologia mundial, ao primeiro e único shopping center da Bahia, na época, ouvindo dessa celebridade uma exclamação de desagrado, manifestada quase aos gritos: “Why did you take me to this american shoping center?”). Isto aborreceu Valdir, mas, num cartão mandado dos EUA, Severinghaus agradeceu a acolhida, dizendo que gostou de tudo na Bahia, ‘least that american shoping center’, o que indica que ambos ficaram tocados pelo episódio.

Valdir deixou esposa, filhos e netos, e uma recordação positiva em todos os que foram tocados por sua influência e conheceram de perto a sua obstinação pelo trabalho e o exemplo de sua conduta ética na medicina.

Dr. Oliveiros Guanais de Aguiar

Médico Anestesiologista

CRM-Ba 1758