Entrevista relembra a trajetória profissional de Dr. Valdir Medrado

Entrevista relembra a trajetória profissional de Dr. Valdir Medrado

Acompanhe uma entrevista exclusiva com Dr. Valdir Cavalcanti Medrado, responsável pela criação do Centro de Ensino e Treinamento em Anestesiologia do Hospital Universitário Professor Edgar Santos, o primeiro do Norte/Nordeste, e pelo CET do Hospital São Rafael, em 1986, onde se manteve firme e atuante, até os oitenta anos.

Formado em 1951 pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, Dr. Valdir Cavalcanti Medrado possuiu um currículo profissional admirável. No dia sete de junho de 2005, numa tarde de terça-feira, no Hospital São Rafael, Dr. Valdir revelou histórias e passagens de vida numa descontraída entrevista regada a bombons de chocolate, uma de suas paixões. Foi um verdadeiro mergulho na imensidão das lembranças do passado onde foi possível também reviver os primeiros passos da Anestesiologia na Bahia.

Dr. Valdir nesses de 54 anos de profissão, o senhor ocupou e continua ocupando vários cargos e é referência da especialidade na Bahia. Sei que é difícil resumir em palavras tantas experiências, mas conta um pouco dessa trajetória?

V.M. – De fato são muitos anos de profissão dos quais me orgulho, porque sempre tive como principal objetivo ser um profissional de competência. Ainda na graduação fui interno da segunda cadeira de clínica cirúrgica do Professor Edgar Santos. Fui também interno concursado da Maternidade Climério de Oliveira. Em 1953, a convite do Dr. Jorge Novis, professor de Fisiologia da Faculdade de Medicina da UFBA, fui assistente honorário. Nesta mesma época, fui indicado para a Maternidade Nita Costa, localizada no bairro do Rio Vermelho e também para o Hospital das Clínicas. Em 1955, o Prof. Novis me convidou para ser professor assistente de Fisiologia da recém criada Escola Baiana de Medicina. Dois anos depois, fui para os Estados Unidos juntamente com o Prof. Novis cursar Fisiologia Clássica com Moderna Instrumentação na Baylor Medical School, em Houston. Após o curso, visitamos vários Departamentos de Fisiologia de universidades norte-americanas. No mesmo ano, quando conclui o curso na Baylor fui aceito como residente de anestesiologia no Duke Hospital, Duke Medical Center, na cidade de Duran, na Carolina do Norte, onde permaneci por dois anos, período normal da especialidade na época. No último ano, fui indicado chefe dos residentes. Lembrando que antes de ir para os EUA fui eleito vice-presidente da Sociedade Brasileira de Anestesiologia e seria presidente no ano seguinte, caso permanecesse no país. Finalmente, retornei para o Brasil, em 1967 e, logo após, criei o CET do Hospital Universitário Professor Edgar Santos. Fui duas vezes presidente da SAEB (1966 e 1972), vice-presidente (em 1972) da Sociedade Brasileira de Anestesiologia e, no ano seguinte, eu assumi a presidência da SBA. Participei da Comissão de Ensino e Treinamento da SBA, e em 1986 a convite do Dr. Trípole Galdenzi, Dra. Liliana Ronzoni e da Dra. Laura Ziller fui chamado para chefiar a anestesia do HSF, onde permaneço até hoje. Por mais de uma década estive à frente da diretoria médica do Hospital Espanhol, de 1992 a 2003. Atualmente, sou Membro da Internacional Anesthesia Research Society e da American Society of Anestesiologists, Membro Honorário da Sociedade de Anestesiologia do Rio de Janeiro, Sócio Honorário da Sociedade de Anestesiologia de Minas Gerais, em Tiradentes, Sócio Remido da SBA e Sócio Benemérito da Associação Baiana de Medicina. Também escrevo artigos em livros, na Revista Brasileira de Anetsesia e em revistas internacionais.

Em que período do curso de Medicina surgiu o interesse pela Anestesiologia? O que motivou a escolha pela especialidade?

V.M. – No último ano de curso médico surgiu o interesse pela Anestesiologia motivado pelo sofrimento das gestantes que não contavam com a assistência do anestesiologista. Em muitos casos, os restos ovulares eram retirados na enfermaria, ou seja, na presença das outras pacientes. O interno, sem luvas apenas com o braço esterilizado com uma solução a base de álcool iodado e vaselina nas mãos, introduzia até o útero das pacientes para retirar todo o material. Imagine, o quanto essas mulheres sofriam.

Normalmente, todo início de carreira é difícil. Além dos familiares, outras pessoas o ajudaram nesse começo?

V.M. – Sempre contei com o apoio de muitos colegas, mas dois nomes merecem destaque. Recebi muita atenção do falecido Dr. Afrânio Torres e do Dr. Walter Vianna, na época chefe do serviço de Anestesiologia do Hospital das Clínicas. Eles foram meus verdadeiros orientadores. Neste período existiam apenas oito anestesistas em Salvador: Dr. Afrânio Torres, Dr. Walter Vianna, Dr. Menandro de Faria, Dr. Eduardo de Araújo, Dr. Milton Luz, Dr. Adriano Gordilho, Dr. Nelson Sales e Dr. Alfredo Rosa Bureau. Eu retornei para o Brasil, no final de 1959, nesta ocasião o Professor Roberto Santos iniciou o programa de residência em Clínica Médica e Anestesiologia no Hospital Universitário Edgar Santos. O Dr. Djalma Neves Costa foi o primeiro residente. Em 1964, retornei para os EUA como fellow em pesquisa na Duke Hospital onde realizei alguns trabalhos ao lado do meu grande chefe Dr. C. R. Stefan, a quem devo grande parte da minha formação em Anestesiologia. Retornei para Salvador em 1967 e reassumi meu posto na Maternidade Nita Costa e no Hospital das Clínicas. Logo após esse período, criamos o Centro de Ensino e Treinamento em Anestesiologia do Hospital Universitário Professor Edgar Santos.

O Norte/Nordeste, neste período, não tinha um centro de especialização em Anestesiologia. Como foi esse início? Como surgiu a criação do primeiro CET?

V.M. – Era uma necessidade para a Bahia já que existiam, na ocasião, centros de treinamento em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul. Muitos desses formandos se dirigiam para o Sul/Sudeste para terem o título de Anestesiologistas. Inicialmente, as dificuldades eram muito grandes, e até hoje existem. Só que no início o que mais pesava eram questões práticas de manutenção, a parte financeira. Por exemplo, quando criei o CET do Hospital Universitário Professor Edgar Santos, durante trinta anos, os custos com a minha secretária eu assumi. Os impressos eram todos mandados fazer por mim, ou seja, o custo também era meu. O acervo da biblioteca, grande parte do material ainda está aqui na minha sala no São Rafael, foi todo comprado por mim. Hoje, muita coisa mudou. Eu estou ausente do Hospital Professor Edgar Santos, há sete ou oito anos, não sei exatamente como está o CET. Mas o acredito que está indo muito bem, afinal o centro está entregue a um colega que foi meu residente, um brilhante profissional que é o Dr. Luciano Garrido. Tenho certeza que o CET está bem administrado porque, para isso, Dr. Luciano tem qualidade. Já aqui no Hospital São Rafael eu encontrei certas facilidades, o que não encontrei na universidade. Hoje, eu tenho minha sala com biblioteca, tenho secretária e isso não me custa nada, além de uma excelente equipe de funcionários e colegas.

Como o senhor avalia a procura pela especialidade nos dias atuais?

V.M. – A especialidade em Anestesiologia vem sendo muito procurada porque há um déficit desses profissionais no Brasil. O interior da Bahia precisa de anestesiologistras. Eu estive recentemente, no ENAI, em Vitória da Conquista, e foi notória a necessidade de Anestesiologistas por lá. Aliás, isso não é apenas em nosso país. Nos Estados Unidos é a mesma coisa, há um grande défict. Mas é importante ressaltar que, hoje, o nosso nível de treinamento é muito bom e o reflexo está nas provas que são realizadas anualmente em todo o país, no mesmo dia e no mesmo horário. Os nossos candidatos têm obtido primeiro e segundo lugar entre trezentos, quatrocentos residentes no Brasil. Sempre conseguimos excelentes classificações. Para nós que trabalhamos com a preparação desses profissionais, isso é muito gratificante!

Hoje aos setenta e sete anos e em pleno vigor, qual a sua rotina de trabalho?

V. M. – Atualmente, eu dou aulas aos residentes às terças-feiras e quintas-feiras, às sete da manhã, aqui no Hospital São Rafael e depois temos atividades no Centro Cirúrgico. Segunda-feira à tarde, eu me ocupo com a parte administrativa. Não posso deixar de reconhecer que, aqui no hospital São Rafael, tenho uma equipe de primeira grandeza. Profissionais sensacionais! Imagine que tem um colega que foi residente nosso, fez consurso para a Faculdade de Medicina e conseguiu o primeiro lugar… É uma grande satisfação estar aqui não só pelo grupo de Anestesia, mas também, pela equipe da Terapia Intensiva. O Hospital São Rafael realiza cirurgias complexas. Vários pacientes vêm em estado grave, pessoas com problemas seríssimos que dependem da qualidade do profissional Anestesista ajudando na recuperação. Mas todos os fins de semana, eu me refugio numa fazenda às margens do Rio Paraguaçu. É uma outra paixão de minha vida. São cerca de três horas de viagem de carro, mas é lá em contato com os animais, com as plantas, em verdadeiro estado de paz que refaço as energias para retomar as atividades a cada segunda-feira.

Qual a avaliação de todo esse amparo tecnológico e farmacêutico que o Anestesista conta atualmente?

V. M. – Naturalmente, isso só vem facilitar o nosso trabalho. Nós tivemos uma significativa colaboração da indústria farmacêutica com as novas drogas. No passado, nós tínhamos éter, clorofórmio, cloreto de etila, basofórmio. Para o paciente dormir era necessário usar drogas que não tinham boa qualificação. Hoje, nós trabalhamos, por exemplo, com propofol, um medicamento de rápida metabolização. O paciente acorda rapidamente. A indústria de equipamentos e monitores também foi uma grande conquista da Anestesiologia. Hoje, durante um ato cirúrgico, é possível monitorar a respiração, a circulação, tudo isso num aparelho com quatro ou cinco canais que nos mostra como está o paciente. E a forma para se administrar a anestesia é muito dinâmica e rápida se comparada aos métodos antigos como podemos ver nesse acervo que guardo em minha sala.

O que foi mais gratificante, mais marcante nesses 54 anos de profissão?

V. M. – Sem sombra de dúvidas a evolução da nossa especialidade, principalmente, porque eu que tive a chance de presenciar os primórdios, enfim, como tudo começou. Agora, o que eu dou ênfase é a forma de abordar o paciente, o carinho que o Anestesiologista deve ter. Ele deve encarar a criança como se fosse o seu próprio filho, o adulto mais jovem como se fosse o seu irmão, a mulher como se fosse a sua mãe e o velho como se fosse o seu pai. Os momentos mais difíceis da nossa vida são quando nos encontramos numa mesa cirúrgica. Nesse momento, não existe o corajoso. Por isso, o paciente precisa de muita atenção e de agrado. Eu uso constantemente música no centro cirúrgico. Quando utilizo anestesia local e o paciente não estão dormindo, muitos deles chegam a cantar acompanhando a música. Eu tenho uma paciente, por exemplo, que não queria mais ser operada, mas quando ela passou pela porta e viu um DVD Glória Stefan, resolveu se operar. E quando terminou a cirurgia, pediu para ficar mais tempo na sala para terminar de assistir ao vídeo. Um professor de Educação Física, do Colégio Marista, entrou na sala e começou a sorrir. Depois quando finalizamos a cirurgia e ele já estava no quarto me disse que um dos melhores momentos da estadia dele no hospital foi ter entrado para fazer o procedimento ouvindo a música do seu casamento. E até hoje quando nos encontramos ele me abraça e me beija agradecido. Esse carinho ajuda bastante. Gosto muito de trabalhar com as crianças. Eu anestesio muito na ressonância magnética e na tomografia. Muitos meninos e meninas que vêm com a indicação do exame sob anestesia, eu consigo realizá-los tranquilamente com chocolate nas mãos. Eles ficam quietinhos sem se mexer porque estão com fome e sabem que assim que ternimar o procedimento, vão comer o doce. Eu sei que é difícil, mas devemos estar alegres, satisfeitos e não transferir os nossos problemas particulares para estes momentos críticos para o paciente. Fico feliz em presenciar uma maior humanização da nossa especialidade. Temos até consultório de anestesia. Através de contato mais próximo, a avaliação pré-cirúrgica é bem mais eficiente e detalhada facilitando bastante o procedimento porque, inclusive, o paciente se sente mais seguro. Essa é uma realidade em Salvador. Todos os serviços de Anestesiologia já montaram consultório.

Cinthya Brandão

Jornalista

DRT-Ba 2397