Clício Costa, o colega inesquecível

Clício Costa, o colega inesquecível

Faleceu, em 04 de janeiro deste ano (2009), o colega, amigo e companheiro Clício de Oliveira Costa. Estamos nos referindo a uma das mais emblemáticas figuras da anestesiologia baiana. Clício não desejou ocupar o proscênio da anestesiologia brasileira, mas a sua atuação discreta e silenciosa, resultante da grande modéstia que tinha, não conseguiu fazer esquecido o seu papel relevante em momentos importantes do movimento associativo da anestesiologia brasileira.

Clício, por seu temperamento sério e agregador, ocupou, por duas vezes, a presidência da Sociedade de Anestesiologia do Estado da Bahia (SAEB), em dois mandatos distintos, estando à frente da entidade durante quatro anos. Em 1975 e 1985, época de realização, na Bahia, de bem sucedidos Congressos Brasileiros, ele encontrava-se na presidência da nossa Regional. E por que Clício? Porque ele, desprovido de ambição, conseguia ser unanimidade na preferência dos colegas que iam envolver-se nas atividades preparatórias e executivas dos eventos, possibilitando a harmonia e solidariedade necessárias nessas ocasiões tão propícias ao surgimento de divergências. Com ele, os entendimentos se tornavam possíveis, e o trabalho de realização daqueles eventos foi pleno de êxitos, em nossa apreciação e no depoimento dos que aqui vieram.

Clício veio do Piauí, formou-se na Bahia, aqui se tornou profissional da anestesiologia, constituiu família e fez um nome respeitado. Como médico, era um exemplo; na conduta, um paradigma de ética; no trabalho, um espelho em que todos podiam mirar-se, notadamente os mais jovens, que, buscando ícones, viam na sua serenidade e dedicação o que havia de melhor como modelo profissional a ser seguido.

Acredito que fomos, Altamirando Santana e eu, os seus maiores amigos, porque havia, a identificar-nos, o barro de nossas origens. Mas eu e Clício éramos iguais, nas fantasias e nos prazeres. Amávamos o sertão, as caatingas, a vida simples das aldeias do interior. Gostávamos de viajar olhando umburanas, favelas, unhas-de-gato, essas coisas que fazem parte das tristes paisagens cinzentas dos nossos matos nas prolongadas estiagens das secas.

Gostávamos dos “restaurantes” de estrada e suportávamos até mesmo as dormidas nas pousadas desconfortáveis dos lugarejos em que a noite nos alcançava. Tivemos a sorte de ter esposas solidárias que nos acompanhavam, demonstrando alegria e entusiasmo (?), e o apoio delas permitiu-nos visitar os mais simbólicos lugares do sertão baiano, onde misticismo, lendas e história misturam-se no imaginário da cultura popular: Bom Jesus da Lapa, Monte Santo, Canudos, Raso da Catarina, Angicos e outros mais. Por isso, as nossas férias aconteciam no mesmo mês, prevendo esses tipos de viagens que outros não teriam interesse em fazer.

Clício foi a melhor imagem do anestesiologista perfeito, do companheiro de trabalho que todos gostariam de ter. Não transferia aos jovens os encargos pesados que teriam de ser realizados por alguém, e, muitas vezes, ele próprio os assumia. Trabalhou, até o seu limite de aposentadoria compulsória, no Pronto Socorro da Bahia, enfrentando a grande luta das emergências, solícito a todos os chamados, no seu tempo integral de trabalho. Faltava a Clício o espírito de chefe, mas não lhe faltavam atributos de liderança: exemplo; solidariedade para com os colegas; coragem de enfrentar desafios; alegria pelo trabalho e identificação com o que estava a fazer.

Foi, essencialmente, um indivíduo bom, de uma bondade poucas vezes encontrada em outros e nunca superada por ninguém. E, além disso, era de uma perfeição absoluta.

Nos últimos 30 anos, pela forte influência da esposa, Ianê, Clício dedicou-se aos movimentos cristãos, participando ativamente de encontros de casais, ministrando cursos para noivos ou levando para outras cidades a sua experiência e conhecimento religiosos, num trabalho bem reconhecido pela Paróquia da Vitória, a que era ligado.

Clício foi um homem sem defeitos e um mestre, que não ensinou por palavras, ensinou por exemplos.

Ao partir, deixou saudades nos colegas de sua geração, mas nos mais jovens foi que se viu o sentimento da perda de um exemplo, de uma referência moral, de um paradigma dos melhores valores humanos.

Dr. Oliveiros Guanais de Aguiar

Médico Anestesiologista

CRM-Ba 1758